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Rudnei começou com hidroterapia e aos poucos conseguimos convencê-lo a caminhar.

Até que fomos para nossa primeira prova:
Corrida dos Bombeiros, 2001. De lá pra cá, ele se tornou o atleta Top Notch mais determinado. Veja porque:
Rudnei Moreira
Idade: 48 anos
Profissão: Sargento do 3º Batalhão de Choque da Polícia Militar-SP
Altura: 1,90m
Peso: 116kg
Cidade natal: Ribeirão Preto
Corre por quê: “A corrida é como a vida”.

Vencer um obstáculo de cada vez. É assim que Rudnei Moreira encara o maior desafio de sua vida: usar o esporte para recuperar-se de um acidente violento e repleto de cicatrizes.

" Julho de 1998. Eu estava de férias em São Paulo. Duas pessoas vieram roubar meu carro, um deles armado. Empurraram-me para o banco do passageiro. Quando o ladrão passou a arma da mão direita para a esquerda para dirigir, vi a minha chance. Pulei em cima dele, mas ele conseguiu se esquivar. Eu estava com as pernas para fora do carro e ouvi o barulho do primeiro tiro, que me acertou a coxa. A segunda bala eu vi saindo do cano do revólver, e agora ela está alojada em minha cabeça.

Depois os ladrões saíram em alta velocidade, eu ainda com meio corpo para fora. Mais adiante eles bateram o carro e a porta prensou minhas pernas, fraturando minhas duas coxas.

Fui para o Hospital das Clínicas e recebi uma haste de titânio em cada perna, para manter os fêmures. Seis meses depois, passei por mais uma cirurgia e ganhei mais alguns parafusos para corrigir uma outra fratura na perna direita. A partir daí começou minha recuperação. Fiquei deitado durante cinco meses, sem pode encostar o pé no chão – uma tortura para alguém que já fora integrante da equipe de atletismo de Ribeirão Preto e que adorava correr. Depois passei para a cadeira de rodas e para o andador. Foram dois anos até que eu pudesse começar a realizar exercícios físicos na academia. Após sessões na piscina, passei para a musculação.

Quando estava sozinho, ficava olhando para a parede e refletindo sobre os momentos de descontração que tive durante minha vida. Família, festas, amigos. Me via na praia, imaginava o céu. Em meus sonhos, eu nunca estava numa cadeira de rodas, mas sempre andando, correndo. Para mim isso era um sinal de que a situação em que me encontrava era passageira, e de que eu não podia abrir mão da determinação de voltar a ser o que era.

Mas também passei por uma fase em que eu chorava muito, porque eu queria fazer as coisas, mas não conseguia. Não podia ficar de pé. Precisava de ajuda para tomar banho, para me virar, para trocar o lençol. Dependia dos outros para tudo. Essa impossibilidade é que me levava às lágrimas.

Eu só saía da cama para fazer os exercícios de fisioterapia. Um dia, meu médico avisou: “É hora de andar!”. Não acreditei. No dia seguinte, andei 12 horas. Só parei para almoçar. Fui andando pela área central da cidade, o andador e eu. Ia gemendo, gemendo mesmo, mas continuava andando. Para atravessar uma rua, para subir num ônibus, que sacrifício! Foram cerca de 70 dias desse jeito.

Enquanto estive na cadeira de rodas, as pessoas olhavam para mim de cima. Me deparei com cada expressão! De algumas eu não me esqueço: olhar de desprezo, olhar de quem pensa “ah, esse aí já era”. Mas algumas pessoas me olhavam querendo ajudar, fazer alguma coisa. Com o andador, era a mesma coisa. Esperava o ônibus no ponto e o motorista não parava. Acho que ele pensava que eu era um bêbado.

Em 2001, participei de minha primeira corrida depois do acidente, na Corrida Bombeiros Corpore. Não acreditava que conseguiria, mas o pessoal me incentivou bastante e fui. Minha perna direita ainda doía, apesar de eu tê-la condicionado bastante nas caminhadas lá no centro. Cruzei a linha de chegada andando, mas completamente realizado. Desde então, participei de várias outras provas, em algumas só caminhando, em outras alternando caminhada e trote. Sempre que participo, é para terminar. E termino. Se vou fazer 10km, faço com muita fibra. Na última corrida, baixei em oito minutos meu tempo nos 5 km. Agora faço em 42 minutos.

Toda corrida é uma história com começo, meio e fim. É como a vida: você se aquece, começa a correr de uma forma, escolhe um ritmo e depois vai se adaptando. Seja forte, fraco ou mediano, você varia de acordo com suas condições, dependendo de como quer chegar no final. É assim que encaro a corrida, é assim que encaro a vida."